Como eu havia contado aqui, estou fazendo um curso de capacitação para ser um guia Blue Badge, a certificação mais alta aqui do Reino Unido para guia de turismo. E por causa dele, aulas, palestras e debates espetaculares, e às vezes acontece de eu sair de uma palestra ansiosíssima, doida para contar para alguém o que eu aprendi.

 

E uam das coisas que eu percebi nesse curso, logo no início, é que eu estou tendo um enorme privilégio em fazer esse fazer esse curso e por aprender tanta coisa interessante – e eu aprendi que, quando a gente recebe um privilégio desse, há que se compartilhá-lo. E por isso, esse blog também seria um pouco desse espaço para eu dar vazão a essa vontade.

Página do livro “Show your Work”, do Austin Kleon, que é curtinho, bom de ler e que bate lindamente nesta tecla de dividir o que se aprende!

E uma das aulas que me deixou absolutamente embasbacada foi uma aula que tive sobre história do teatro na Inglaterra. Foi o máximo porque o professor foi sensacional (ele já foi diretor, dramaturgo e ator no National Theatre e no Royal Opera House aqui de Londres #apenas). Mas também porque a aula foi sobre política, sobre comportamentos, sobre religião, sobre arte e sobre censura – e eu não tive como não me pegar fazendo um paralelo com a mesma discussão que anda acontecendo espinhosa e explosivamente no Brasil nesses últimos dias.

Mas se os ânimos no Brasil andam muito acirrados para discutir essas questões, nada como mudar de assunto e ver o que aconteceu de parecido nos outros países, com outra distâncias e em outro tempo, para daí tirar as lições que você quiser. Ou não.

Para mim, ficou a lição de tentar transformar uma aula dessa em um tour. Não sei ainda como fazer – mas conto assim que conseguir! 🙂

 

A história do Teatro na Inglaterra

 

Como não podia deixar de ser, uma aula de história do teatro inglês só poderia começar com Shakespeare – que foi “o cara”, e o primeiro exemplo no teatro de que o que acontece nos palcos está diretamente conectado à vida que acontece fora deles. O dramaturgo inglês escreveu mais de 37 peças, 400 sonetos, revolucionou a língua inglesa, expôs os amores e as mazelas humanas e ajudou os ingleses a expiarem juntos o passado dos seus reis e do seu país. Num tempo em que os gênios culturais da Europa restringiam suas artes às elites, Shakespeare criava o teatro para qualquer pessoa que conseguisse pagar alguns centavos. E elas conseguiam: o primeiro Globe, o teatro construído pela companhia dele, tinha capacidade para 3 mil pessoas, talvez o primeiro entretenimento de grande público depois das arenas romanas.

Com a vantagem de que, ao menos em comparação com as arenas romanas, com Shakespeare morria muito menos gente no espetáculo.

Mas se Shakespeare foi isso tudo, parte foi devido ao seu enorme talento, mas também porque o momento era propício. A Inglaterra estava entrando num momento de ascensão econômica por conta das navegações,  e a Elisabeth I estava reinando linda e absoluta. A frota naval inglesa havia dado um olé na Armada Espanhola, e o reino inglês estava em paz com o resto da Europa e consigo mesmo: tudo isso, junto com o teatro, contribuiu para fazer germinar o princípio de um orgulho nacional, uma coisa razoavelmente inédita naquela época. Importante ressaltar, porém, que Shakespeare pode até ter sido o mais famoso, mas ele não estava sozinho: na esteira dele havia todo um movimento de importantes dramaturgos como Christopher Marlowe, Ben Johnson, George Chapman, entre outros, que fizeram do início dos 1600s os Anos Dourados do teatro, como os ingleses dizem até hoje.

Tudo andava muito bem até 1642, quando todos os teatros ingleses foram fechados por ordem do Oliver Cromwell, que era um cara puritano e sisudão. Daí dali a pouco rolou uma guerra civil, que por sua vez fez rolar a cabeça do rei Charles I e o Oliver virou o chefe da bagaça toda. A partir de então ficou proibido ter rei, ir ao teatro, rir, contar piada, praticar esportes e vestir qualquer coisa que não seja preto, porque sabemos que tudo isso arrasta a gente para a lascívia e pecado.

Eu tirei essa foto no teatro do The Barbican, aqui em Londres – uma das casas da Royal Shakespeare Company. Tirei porque o salão era enorme e lindo, mas o estofado dos bancos trazia ainda a marca das pessoas que sentaram ali um dia para assistir um espetáculo. Olhando essas marcas assim, vazias, era como ver os fantasmas das platéias passadas.

 

A coisa só melhoraria em 1660, quando Oliver morreu e os ingleses descobriram que, bem, até que ter um rei não era tão ruim assim. Chamaram de volta o Charles II, filho do tal rei decapitado. Charlitos, que passou esse tempo todo no exílio sassaricando na corte do rei francês, trouxe com ele o séquito de frufrus, balagandãs, babados e perucas que ele conheceu por lá. Charlitos também adorava teatro, então tá tudo liberado a partir de agora: teatro pode, mulheres no palco pode (até então só homens podiam atuar), nudismo pode, fantasias, perucas, música, comédia – pode tudo. Novos teatros são construídos. Novas atrizes despontam. O burlesco chega. Nova onda de dramaturgos (e, dessa vez, dramaturgas também) floresce. Novas companhias de atores são criadas. Os teatros agora tem cenários que se movem (pense num povo encantado com tanta tecnologia). A vida na Inglaterra volta a ser divertida.

Um detalhe: se na época de Shakespeare as histórias se passavam em terras “exóticas” e quentes como Verona ou Veneza, essas novas peças só falariam de Londres. A idéia era, assim, criar uma identificação imediata com o público. Isso significa que, se houvesse uma piada ou uma cena que expusesse um falha qualquer comum à alta sociedade (tipo um marido traído, uma esposa adúltera, um figurão sendo feito de bobo) toda a platéia ria, geralmente porque já sabia de quem se tratava, e esse alguém invariavelmente estava na platéia assistindo. Toda essa troça era considerada muito divertida na época, exceto, provavelmente, por quem era o alvo da piada ou que porventura vestisse a carapuça: era comum ter confusões com pessoas da platéia querendo (e às vezes conseguindo) matar o ator que fez a piada.

Mas há os incomodados que não se mudam, e por sua vez preferem mudar a ordem das coisas, nem sempre para melhor. Em 1737 o governo emitiu uma lei estabelecendo uma censura prévia, que exigia que toda peça fosse aprovada antes de ir ao palco, e dando plenos poderes ao governo de fechar teatros e performances que desobedecessem a regra, bem como dispensando o governo de dar qualquer justificativa sobre um veto. Quem estava por trás dessa lei era Robert Walpole, o “primeiro-primeiro-ministro” inglês, e por consequência, o primeiro cara a entrar para a berlinda do que viria a se tornar o esporte preferido do mundo inteiro, que é o de satirizar os políticos. Walpole não gostou dessa berlinda, achou que as piadas diminuiam sua autoridade, e aproveitou a deixa (uma peça escandalosa que insinuava gracinhas sobre o rei) como motivo para estabelecer a censura.

Só que essa censura durou 230 anos. Duzentos. E. Trinta. Anos.?

O primeiro efeito da censura foi gerar um vácuo imediato em todos os palcos do país – simplesmente de uma hora para outra não havia peça para apresentar. E com a rigidez da censura e a violência com a qual algumas peças eram fechadas, criou-se um segundo vácuo criativo: extingiu-se qualquer possibilidade de uma nova obra prima, já que qualquer potencial de  genialidade de um dramaturgo morria antes de ir para o papel, porque 1) provavelmente não seria aprovado pela censura e 2) o dramaturgo precisa ter uma peça no ar se ele quisesse fazer essas coisas supérfluas como comer e pagar as contas. O resultado foi um período de 230 anos em que o teatro inglês, tão conhecido por ser contestador e genial, passaria a apresentar apenas peças maçantes e sem graça, em que só eram apresentadas histórias que não trouxessem o menor incômodo à platéia. Nem Shakespeare escapou desse facelift: novas versões foram reescritas sem os palavrões, personagens mais cáusticos ou grotescos foram omitidos, e até os finais ficaram mais felizes – agora, Romeu e Julieta viveriam felizes para sempre.

“Se você me pedir para enumerar grandes dramaturgos ingleses , eu consigo fazer uma lista enorme de nomes que vêm imediatamente à minha cabeça” disse meu professor. “Porém, eu teria uma enorme dificuldade em nomear 5 grandes dramaturgos neste período de 230 anos. Alguns atores despontaram aqui e ali, claro – mas é quase impossível um ator despontar entregando uma performance genial se tudo o que ele tem é um papel com falas tediosas, sem graça.”

O curioso é que não é que o mundo fora dos palcos estivesse parado durante este hiato: a Inglaterra estava a todo vapor (literalmente) na Revolução Industrial, o Império Britânico estava no seu auge e, pelo menos nas condições normais de temperatura e pressão, o país atravessava uma ascensão econômica semelhante à que tinha permitido Shakespeare e sua trupe criar tanto 150 anos atrás. Mas ao contrário daquela época, havia uma enorme insatisfação política, uma série de protestos por reformas sociais, e as classes dominantes acharam melhor que, em prol do crescimento econômico, da moral e dos bons costumes, era melhor que todo mundo ficasse dentro do script, de preferência trabalhando sua jornada diária de 12 horas dentro das fábricas.

Houveram resistências e um certo jeitinho, claro. Nasceram os melodramas e os musicais (sob o argumento de que tinham mais música que diálogo, então não eram considerados “teatro” e, portanto, estavam livres da censura). Mais tarde, descobriram que colocar um palco pequeno num pub com espaço para três pessoas tocando instrumentos já era entretenimento suficiente para vender entradas (e também não precisava ir para a aprovação do governo). Era a faísca do que viriam a ser os music halls.  A dramaturgia ainda teve um rápido sopro de genialidade nessa época com algumas pessoas como o irlandês Oscar Wilde, que começou com algumas peças censuradas, mas conseguiu emplacar “A importância de ser prudente”. Considerada sua obra-prima, tinha um cenário bem comportado como mandava o figurino, mas vinha recheada de mensagens sutis. A estréia foi um sucesso estrondoso, mas saiu de cartaz em algumas semanas porque descobriram que Wilde era gay e, bem, basta procurar a história dele no Google para ver como a Inglaterra tratava super bem os gays na época.

Oscar Wilde. Crédito da foto: Napoleon Sarony [Domínio Público], via Wikimedia Commons

A censura só acabaria em setembro de 1968, e no dia seguinte o musical “Hair” estava estreando no Soho e enchendo o palco de gente pelada; talvez para sanar rápido a longa abstinência inglesa por algo novo para além das cortinas. 10 anos depois e Londres sozinha já teria 250 companhias de teatro (antes, a quantidade de companhias não enchia os dedos de uma mão). Alguns críticos de teatro afirmam que 1968 foi o Big Bang (não confundir com Big Ben) dos teatros ingleses, como se tudo começasse do zero novamente. Viria Andrew Lloyd Weber (Fantasma da Ópera e Jesus Christ Superstar), Caryl Churchill (feminista e influenciada por Bertold Brecht que, ok, era alemão mas que escrevia peças acidamente políticas), os festivais Fringe da Inglaterra e Escócia e, bem, hoje é só ir no West End londrino para ver um rápido exemplo da ferveção deliciosa que é. Amo. Amamos, né?

 

O lindíssimo Royal Albert Hall em South Kensington, preparado para uma apresentação do Cirque du Soleil

 

Achei a aula encantadora – embora, junto com ela, eu tenha três dúzias de datas para memorizar para o teste. Mas sem querer, me fez pensar bastante na questão da censura às atividades artísticas – sobretudo no quanto que a discussão atual que vem acontecendo nos últimos dias no Brasil tem sido assustadoramente parecida com a que estudamos em aula,  ainda que tenha 3 séculos de diferença entre elas.  E eu sou bastante a favor que esta discussão aconteça – ao invés de uma censura sem questionamentos como aconteceu aqui. Pelo que dá para aprender com a experiência dos outros, os resultados não foram nada bons.

Mas enfim: foram 2 horas fantásticas de aula, e dessa linha cronológica central da história do teatro na Inglaterra já consigo ver nascer vários posts sobre o assunto (que prometo ir escrevendo aos poucos). Se você curte teatro, tente vir  numa das peças daqui de Londres, seja dos musicais (Rei Leão, Fantasma da Ópera e Miseráveis são espetaculares) ou peças clássicas (MouseTrap é uma peça de Agatha Christie e já quebrou o recorde de peça com maior tempo em cartaz: 64 anos!). São fantásticos e valem cada um (dos muitos) centavos pagos.

E enquanto isso, estou à caça do tal professor de teatro para convencê-lo a dar um tour pelos bastidores dos grandes teatros aqui de Londres. Prometo contar as cenas do próximo ato em breve! ?

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