Os chamados clichês ingleses não são poucos: expressões como “pontualidade britânica”, “molho inglês”, “mão inglesa” já são mais do que comuns no nosso dicionário. Mas acho que, dessa lista, não há nada que seja mais famoso (ou mais clichê) que o chá da tarde – o chamado afternoon tea.

A verdade é que, mesmo anos morando na Inglaterra, eu demorei a ser apresentada oficialmente ao ritual do chá da tarde inglês – e quando isso aconteceu, foi quase uma overdose, experimentando 3 diferentes chás da tarde numa mesma semana!

O que foi ótimo: deu para experimentar alguns lugares bem bacanas e, principalmente, entender como funciona essa tradição. E a minha primeira lição foi que o chá da tarde é mais do que uma refeição, é uma experiência em si mesma: não da comida per se, mas é quase um evento social. E aqui eu listo 7 dicas do que eu aprendi para curtir o chá ao máximo!

 

1ª lição: O chá da tarde pode até se chamar “chá das cinco”, mas não acontece necessariamente nessa hora.

Eu não lembro quando ou onde eu escutei a tal lenda urbana de que todo inglês pára tudo que estiver fazendo para tomar chá às 5 da tarde, todo dia (juro que eu tinha ouvido iso em algum momento!)

Não sei se isso era um costume antigo, presente entre alguns círculos da sociedade inglesa, mas a verdade é que muitos locais aqui oferecem o serviço de chá da tarde entre 15 e 17 (inverno) ou das 15 às 18 (verão). O tempo médio de duração também é mais esticado – em torno de 2 horas. Isso significa que, se você resolver mesmo tomar chá da tarde às 17 horas, pode ter a triste surpresa de descobrir que, no inverno, a esta hora o serviço já acabou.

Dito isto, a regra não é escrita em pedra. Alguns locais mais tradicionais vão exigir o agendamento, mas há locais em que você pode tomar um chá mais tarde também – o Ritz de Londres oferece horários às 19:30, uma forma de “anoitecer” a refeição (mas fique de olho que é preciso fazer reserva!).

 

2ª lição: Leve uma amiga, ou amigos – mais que comida, o chá da tarde é um evento social

Já diziam que a felicidade só é real quando é compartilhada, e acho que isso vale para as coisas boas da vida também – comida, inclusive. Eu aprendi isso da melhor forma possível – fui a um chá da tarde no Rosebery Lounge do Mandarin Oriental como convidada da queridíssima Mari Campos, e que também escreve para o Viagem Estadão (inclusive, ela escreveu lindamente sobre o assunto aqui, com três dicas delícia de chás que ela conheceu!).

Mas voltando ao ponto: sim, o afternoon tea do Rosebery foi maravilhoso, mas o foco, aqui, foi a companhia, melhor harmonização de um chá da tarde. Primeiro, porque a refeição leva em torno de 2 horas; parece muito, mas é a medida exata para irmos desbravando cada “andar” dos sanduíches e docinhos com calma e com gosto. E é também a medida para caber, a cada mordida, uma prosa deliciosa com amigas que não se vêem há muito tempo.

Convenhamos: é muito mais legal fazer “owww” junto com sua amiga quando você vê que o pote de açucar é uma caixa de música de bailarina!

A experiência se repetiu não só em outros chás da tarde que eu fui depois, mas também com outras pessoas: em todas as mesas ao nosso redor víamos grupos de mulheres, famílias, senhoras, amigos… Todo mundo reunido em seu momento íntimo e particular de conversas, confissões e risadas.(Aliás, aprendi na prática que o chá da tarde é um ótimo lugar para trocar atualizações da vida, planos para o futuro e crises existenciais. Já as confidências mais apimentadas entre amigas caem melhor mesmo nos bares, pós 18 horas). ???

Então, se der, organize a ida com amigos(as) e não enxergue o chá da tarde como uma mera refeição. Ele é um evento social, um delicioso pano de fundo para alimentar o que tem de principal: a conversa de vocês! 🙂

 

3ª lição: Parece que não, mas você vai comer bastante. Vá com o estômago vazio.

Não se deixe enganar pela aparência inocente dos bolinhos e sanduichinhos – é possível sair absolutamente cheia de comida após um chá da tarde completo – e, inclusive, não terminar todo o prato.

Dica: se você agentou um chá da tarde para a metade da tarde, dê preferência a um almoço bem leve por volta do meio dia (aliás, os ingleses fazem as refeições bem cedo, fica o aviso!).

 

4ª lição: o chá está ali por uma razão – é ele que vai te ajudar a conseguir comer todas as opções.

Minha mãe sempre gostava de fazer um chá após a refeição, para ajudar na digestão.  E ela não estava errada.

A verdade é que o chá, além de ser levinho para o estômago, também prepara o seu paladar para receber os diferentes quitutes (que, cá entre nós, muitas vezes são pequenas jóias saídas das mãos dos chefs). Vale, portanto, optar por eles.

Inclusive, quando estávamos no Rosebery Lounge do Mandarin Oriental, tivemos a oportunidade de conversar com uma Tea Master, que fica à disposição dos visitantes explicando os diferentes blends de chá do cardápio e, inclusive, fazendo recomendações de harmonização de chás – qual chá tomar com as partes salgadas, doces e muitos doces da refeição.

Parece preciosismo? Não importa: eu fiquei encantada com a delicadeza de desbravar essas sensações de olfato, paladar, texturas. Se a gente fala tanto de harmonizações de vinho e de cervejas, porque não harmonizar com chás? O princípio é semelhante e a experiència final, igualmente prazeirosa.

Foi uma das experiências que a Mari Campos contou na matéria dela no Viagem Estadão, e que tive o prazer de conhecer com ela. A Mari, ainda, deu outra dica: não troque o chá pelo chocolate quente, por exemplo – pode ser que você não consiga provar toda a refeição até o fim.

 

5ª lição: há chás da tarde de todos os preços, mas os mais tradicionais são mais caros. Acredite, eles valem a pena!

Calma, não me julgue! Eu não coloquei esse tópico querendo que você gaste todo o seu dinheiro, ou meramente querendo dizer que o que é mais caro é melhor (nem sempre essa máxima é verdadeira). Mas é simplesmente um aviso de que os melhores lugares em que eu experimentei um chá da tarde excelente, impecável, maravilhoso (e não me refiro apenas a sabor, mas ao ambiente, ao atendimento, a tudo) foram em locais cujos preços estavam, de fato, no topo da escala geralmente cobrada.

Um exemplo: eu havia ido conhecer o chá da tarde do Sanderson Hotel, que organiza o Mad Hatter Afternoon tea – o fofo Chá do Chapeleiro Maluco (conto como foi aqui).

Desnecessário dizer, só pelo tema eu já estava mega entusiasmada com o programa muito antes de chegar lá.

O chá custava o valor de £48 por pessoa, o que não é a faixa mais em conta em relação aos preços cobrados aqui.

Sim, o chá foi fofo, bem fofo. O lugar é lindo (um jardim de inverno no interior do hotel, que fica mais gostoso ainda em dias de verão, como era o caso da minha visita), os blends de chá da casa eram interessantes e a apresentação bem fofa, com nomes aludindo aos personagens da Alice no País das Maravilhas (Rainha de Copas, Chapeleiro Maluco, Alice, Coelho Branco, etc). A apresentação dos doces e salgados também era linda.

Mas, salvo a temática, eu confesso que o chá não me impressionou muito – o serviço deixou a desejar e, não sei se foi azar meu, mas a louça era fofa nas fotos mas meio desgastada na prática. Os doces eram também muito doces. Eu não aguentei comer tudo.

Preciso dizer, porém, que parte da minha impressão foi fruto do fato de eu ter ido, apenas duas semanas antes, no Rosebery Lounge (que eu mencionei acima) e no Connaught, onde tive dois chás da tarde impecáveis – foi difícil não fazer uma comparação. A diferença de preço desses dois era, também, bem marcada em comparação a do Sanderson.

Mas de forma nenhuma eu aconselharia contra o Chá da Tarde do Chapeleiro Maluco – a temática é engraçadinha e quem tiver paixão pela Alice (o que era o caso da minha amiga Rafaela, que foi quem eu queria levar lá) vai curtir em muito o programa. Fora que é um chá altamente instagramável! 🙂 Esse tópico é só uma ressalva de que, bem, saímos encantadas com a proposta, mas sinceramente eles não ganham todas as estrelinhas do review.

O que tivemos foi proporcional ao que pagamos? Talvez.

Dito isto, fui a outros chás bem mais em conta em termos de preço, e saí satisfeita de alguns deles sim. Chás da tarde mais baratos são possíveis, e eu tô com um post sobre isso na minha lista para escrever. Por favor, aguardem só mais um pouco, para que eu possa terminar minhas pesquisa de campo! ?

 

6ª lição: Na hora de comer, siga a ordem: salgado primeiro, doce depois, scone por último. Não é uma regra, mas ajuda a preparar o paladar

Vamos lá: a “regra” universal – que não é uma regra “oh meu deus tenho que seguir senão blábláblá” – é que primeiro a gente come o salgado, depois o doce. Né?

No caso do chá da tarde, eu adaptaria essa regra para “primeiro o salgado, depois o doce, e depois o muito doce”.

Mas faço a ressalva: você pode comer na ordem que você quiser, porque a única regra aqui é ser feliz, né não?

Então geralmente o chá da tarde inglês é servido assim: sanduichinhos salgados (tem com vários recheios, do mais leve ao mais picante) são servidos primeiro, depois os doces (bolinhos, docinhos, éclairs, etc) e por fim os scones, um típico bolinho inglês, sempre servido em porções individuais. Vou falar dele já já.

Às vezes tudo vem servido em etapas, e outras vezes vem tudo junto, numa espécie de gaiolinha com andares. Nesse caso, como os ingleses dizem, “you have to work your way up”, ou em outras palavras, comer de baixo para cima. 🙂

E por fim vem o scone, um bolinho inglês que pode ser servido simples (“plain”, sem nada) ou com passas. Ele é servido junto com porções de creme, geléia e lemon curd (uma espécie de creme de limão bem doce). É mais gostoso quando a gente come ele quentinho, então fica a dica de pedir apenas no final, para ser servido quando você estiver pronto (a) para comer.

Mas porque fica a dica de comer tudo nessa ordem? Não é uma regra que, se quebrada, vai chocar a sociedade (como aconteceria se, por exemplo, uma carioca colocar ketchup na pizza em São Paulo!?). Mas simplesmente é porque os scones e os doces geralmente já deixam a gente bem satisfeita, de modo que se você comer eles primeiro, pode ser que não aguente experimentar o resto. E cá para nós, se você for nesses chás da tarde mais tradicionais em que um chef é responsável pelos aperitivos, é bem provavel que cada um dos docinhos/salgadinhos/sanduichinhos seja super diferente, e vale a pena provar todos esses paladares! 🙂

 

7ª lição: o chá da tarde não é nada boring! Há opções indianas, veganas, fashionistas e infantis também!

Sério! Se você acha meio monótono ficar tomando cházinho na xícara e falando do tempo (eu adoro fazer isso… mas sou tagarela, falo de tudo!), o que não falta são opções para um chá da tarde mais interessante. A Mari Campos sempre sugere o chá da tarde do Berkeley Hotel, que já virou uma lenda na cidade por oferecer um menu sempre inspirado na última coleção desfilada na London Fashion Week – o cardápio muda a cada seis meses dependendo da coleção, e todos os doces e salgados oferecidos tem as formas das peças que mais marcaram a passarela! ?

Crédito da Foto: Berkeley Hotel website

O One Aldwych tem um chá da tarde inspirado na Fantástica Fábrica de Chocolate – e eu vou apontar essa sugestão como um menu infantil, mas eu imagino que vários adultos iriam adorar (eu inclusive!).

Quem gostar de um lugar extremamente fashionable e altamente instagramável pode experimentar o chá da tarde do Sketch Gallery – eu nunca fui no chá deles, mas já experimentei os drinks que são divinos, e eles geralmente são incluídos em tours de tendências de serviços e design. Quem tem um olhar de design vai gostar de conhecer (ah, o menu é bem sofisticado também).

Veganos podem aparecer no Ethos, que tem um menu bacana de chá da tarde vegano e com opções sem lactose e sem glúten também, a preços mais amigos (£20 por pessoa). Eu ainda não fui, estou vendo com minhas amigas veganas para conferirmos, e conto depois aqui. E uma das propostas mais interessantes que eu já encontrei de chá da tarde é oferecido por uma escola de gastronomia, a Cookery School, que oferece um workshop de gastronomia a £125 em que os alunos aprendem na própria aula a fazer seus próprios quitutes para o chás da tarde. A aula termina, obviamente, como todo mundo comendo as próprias coisas que prepararam durante os exercícios.

Infelizmente é preciso ter o inglês afiado. Mas não é uma experiência maravilhosa??

E por fim, há o chá da tarde num ônibus de dois andares, organizado pela B Bakery. EU nunca fiz o passeio de ônibus, mas já fui na filial da B Bakery de Covent Garden (tomei lá um chá no meu aniversário, inclusive) e posso dizer que gostei dos blends de chá que eles oferecem, e dos scones. Os preços são bem interessantes também – e a vantagem de tomar o chá da tarde no ônibus é fazer a refeição ao mesmo tempo em que vê os principais pontos turísticos de Londres passando pela janelinha!

Afternoon Tea Bus Tour Route
Crédito do Gráfico: site do Afternoon Tea Bus Tour da B Bakery

Só cuidado com a quantidade de chá – não tem banheiro no ônibus! 🙁

Só para finalizar: eu ando numa fase bem chá – já havia falado de uma casa de chá roqueira em Camden que eu adoro, e devo continuar atualizando este post à medida em que for avançando com minhas pesquisas sobre o assunto! Mas espero que este post já seja o suficiente para dar aquele incentivo para vocês experimentarem o chá da tarde! 🙂

 

Nota: de todos os lugares mencionados no texto, apenas os chás da tarde do Connaught e do Rosebery Lounge foram a convite.

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