Uma das memórias mais fortes da minha mudança antes de vir para a Inglaterra foi me desfazer do meu guarda-roupa.

Como carioca nascida e criada, eu sabia me vestir para o calor. Meu armário era bem condizente com a temperatura de Rio 50º graus: uma composição média de 70% de vestidinhos leves e coloridos, sandálias rasteiras, echarpes levinhas e muitos badulaques. Casacos mal chegavam a 1% do meu estoque.

Lembro como se fosse ontem de abrir meu guarda-roupa e pôr, uma por uma, minhas peças sobre um fundo branco para fotografar, e em seguida subir para um grupo secreto no Facebook só de amigas e família: era o ENJOEI privativo da Clarissa.

Todos esses vestidinhos, mas todos mesmo, foram embora. Por motivos de “reduzir a vida até caber tudo em uma mala” e porque eu não sabia se voltaria a usá-los. Então já que é para praticar o desapego, optei por abraçá-lo de uma vez.

E ao me mudar para a Inglaterra (cheguei num outono espremido por um inverno que já dava as caras) aprendi que, mais que aperfeiçoar o inglês, eu teria que aprender a me vestir de novo. Parece besteira, mas o conceito de se vestir em camadas, tão básico para muita gente, era totalmente novidade para mim – no Rio, o máximo de camadas que eu conhecia era levar um casaquinho para ir no cinema ou no frescão.

A mudança não poupou os acessórios. Meus brincões? Parei de usá-los quando cheguei, eles viviam prendendo nos meus cachecóis pesados.

Levou também um tempo até eu ajustar o meu termostato interno. Em várias ocasiões saí agasalhada demais ou de menos, até me acostumar com as mudanças de tempo que aconteciam num único dia. No Rio, eu tinha meus próprios códigos de previsão do tempo, aprendidos com a minha mãe (“menina, leva um agasalho”) e com a observância diária. Por exemplo, se o céu estivesse estrelado de noite, era quase garantia de um dia seguinte ensolarado. Se eu visse o Cristo amanhecendo entre nuvens (eu morava na Tijuca), já botava um guarda-chuva na bolsa. Mas se batesse aqueles rodamoinhos esquisitos de vento no fim de uma tarde de março, com nuvens pretas surgindo por trás da serra, eu já ligava para uma amiga que morasse perto porque fato que ia cair um toró de alagar tudo.

Na minha vida tijucana, esses códigos informais funcionavam na maioria das vezes. Mas em Londres não queriam dizer absolutamente nada.

Daí o que aconteceu: como eu era recém-chegada, com mil coisas para ajeitar (e pagar, especialmente, porque mudanças podem significar muitas coisas, mas “barata” definitivamente não é uma delas), eu ainda tinha que desenvolver minha habilidade em coordenadar camadas e cores tudo ao mesmo tempo. Eu, querendo, ser prática, acabei me rendendo à técnica do Mark Zuckerberg para me vestir: poucas roupas, quase todas iguais, quase todas cinzas e pretas e pronto, tava tudo certo. Resolveu lindamente o meu problema, especialmente porque o espaço dos quartos em Londres é minúsculo e o meu orçamento também. Mas se alguém me perguntasse, eu diria que fiz assim porque, “claro, armário cápsula é a última tendência, fora a questão da decision economy que a gente não pode esquecer, viu a última matéria com o Obama e o Steve Jobs?”.

Dito isto, eu ressalto que ter menos roupas e todas coordenáveis entre sim de fato simplifica a vida enormemente, e eu realmente acredito em diminuir decisões de baixo impacto do dia a dia, como “com que roupa eu vou”. Sou adepta deste conceito hoje, que mudou a minha vida. Mas a idéia do post não é sobre isso. É sobre a jornada.

Verdade seja dita, um armário mais enxuto e sóbrio facilitou muito a minha vida. Mas por outro lado, a Clarissa colorida que eu reconhecia tão bem desapareceu sob camadas de roupas pretas, e levou um tempo para eu me encontrar de novo. Aliás, levou um tempo para eu me encontrar em muitas outras coisas, e o armário foi apenas a parte mais visível dessa perdidice.

Acompanho algumas blogueiras e personal stylists que eu gosto (Thais Farage, Oficina de Estilo, Ana Soares e, mais recentemente, minha querida amiga Patrícia Mazaro) , e vejo que elas falam muito sobre como a gente se sente reflete nas nossas roupas. Acho isso de uma verdade intimidadora. Sei que cores, por exemplo, dizem muito sobre mim – minha cor preferida, e mais marcante, é o amarelo. Amarelo gema, amarelo Van Gogh, amarelo vida. E se meu primeiro armário na Inglaterra era preto e escuro demais, eu sentia que assim o era não porque eu estivesse deprimida, mas por no meio de tanta novidade na vida eu me sentia perdida no turbilhão em que a minha vida estava se transformando. Fora que eu também estava afogada em demandas que iam desde a instalação da internet em casa até o decifrar das linhas minúsculas de contratos de aluguel de casa. Meus primeiros anos de mudança e adaptação tinham pouco espaço de respiro para ousadias colorísticas. Meu guarda-roupa e o ato de me vestir refletia o breu próprio dos inícios.

Uma coisa interessante é que andei conversando com outras amigas que também estavam em processo de mudança – algumas de país, outras apenas de cidade – e elas passaram por sensações parecidas. Se desfazer de toda uma vida para se fazer caber em duas malas é libertador e ao mesmo tempo apavorante. E quase todas relataram o quanto parte dessa sensação de suspensão acontecia, de diferentes formas, em como elas se viam no espelho. E eu sei que tem muito do nosso psicológico em questão, mas eu falo aqui de roupa e de me vestir, nos vestir mesmo.

Mas esse post nasceu de um gatilho, na verdade. É que neste último fim de semana tivemos nossos primeiros dias com temperaturas acima de 25 graus. Foi uma benção meteorológica, especialmente depois de um inverno cheio de neve e planetas retrógrados, e uma primavera que até então estava brincando de quadrilha junina: flores desabrocham “Esquentou!” e a gente “êêê”, o vento sopra “É mentira!” e a gente “ahhh”.

Daí saiu todo mundo de perna de fora, braço de fora, biquíni no parque, cerveja na mesa do escritório, sorvete na mão, sandália rasteira no pé. Londres virou mureta da Urca.

Eu, óbvio, ressuscitei correndo meus vestidinhos cariocas pela primeira vez neste ano, e me peguei pensando no meu período de adaptação térmico-fashion-pessoístico desses 3 anos de Inglaterra. Percebi hoje que meu guarda roupa já tem uma paleta de cores mais iluminada em relação aos meus primeiros meses aqui, mas também vejo que em cada peça de roupa, mesmo as escuras, eu posso encontrar um pouco de Clarissa. Sem dúvida uma Clarissa diferente do que era há três anos atrás: a de hoje é um pouco nutella, um pouco raiz, um pouco chá inglês e um tanto Matte Leão, tudo ao mesmo tempo – mas já é sobre me vestir de Clarissa, portanto.

Fato: nosso guarda-roupa pode acomodar as modas de fora, mas é também sobre os modos de dentro. Agora vejo que o meu armário me mostrou que meu processo de construção dessa Clarissa londrina continua, mas pelo menos já passei da adaptação para agora me permitir me sentir… confortável. Tanto dentro de mim mesma como na minha vida aqui.

E, ouso dizer, tem vezes que voltar à nossa zona de conforto é uma delícia – pelo menos a do nosso armário, essa porção de intimidade com a gente mesmo. Mágicas super acontecem quando a gente está lá.😊

Para quem também está se aventurando em estilo pessoal e roupas

Então… Temos novidades!

Ando fazendo uma consultoria de estilo com uma amiga querida minha aqui de Londres, a Patrícia Mazaro, que em breve estará montando seu negócio. O processo está sendo bem de um aprendizado fantástico, e sobretudo cheio de auto amor e descoberta sobre as roupas que a gente já tem, sobre se permitir com novos estilos de roupas e se descobrir em cores, cortes e modelagens! Estou amando, e pretendo contar mais por aqui assim que terminarmos – assim como dar mais detalhes sobre o trabalho incrível da Patrícia, e porque vale a pena vocês conhecerem ela também!

Aguardem! 😊

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Jornalista, blogueira, profissional de marketing e, agora, guia de turismo. Sou uma apaixonada por histórias de lugares e de pessoas, e resolvi trazer essa paixão do texto para as ruas quando topei o desafio (e as intermináveis horas de estudo) de me certificar como guia Blue Badge, a mais alta certificação em Londres. Ainda estou no curso, mas está sendo uma viagem deliciosa, que tenho um enorme prazer em compartilhar!

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